Título: Marília Pera
Marília Pera
Entrevista Filmografia



" Perpétua nasceu velha, nem sei como conseguiu casar. Mocinha, se meteu na sacristia da Igreja com as carolas, a mais beata de todas. Para ela, eu era o diabo em pessoa. "

Tieta do Agreste, Jorge Amado
Marília Pera, por vários motivos, é considerada a artista mais versátil e completa do país. Como atriz de cinema, teatro e tv, exibe uma presença magnética em cena, e seu admirável poder de concisão está aliado a um timing perfeito - seja em dramas, comédias ou musicais.
No cinema, teve atuações marcantes em filmes como O Rei da Noite (de Hector Babenco), Bar Esperança (de Hugo Carvana), Anjos da Noite (de Wilson Barros) e Dias Melhores Virão (de Carlos Diegues). Sua hipnótica interpretação da prostituta Sueli em Pixote, lhe rendeu vários prêmios internacionais, como o de melhor atriz pela Sociedade Nacional de Críticos dos Estados Unidos. Impressionado com sua atuação em Pixote, o diretor americano Paul Morrissey, principal colaborador de Andy Warhol, a convidou para viver a matriarca de uma família de marginais latinos em Mixed Blood.
Sua longa trajetória na TV foi marcada por sucessos em novelas como O cafona, Bandeira 2, Uma rosa com amor, Super Manoela, Brega e Chique, os seriados Quem ama não mata e Primo Basílio, além de programas como Viva Marília e Planeta dos Homens. Em O campeão, sua última novela (Tv Bandeiratnes) Marília Pera interpreta uma cantora lírica.
Entre os seus vários sucessos no teatro estão A vida escrachada de Joana Martine e Baby Stampanato, Apareceu a Margarida, Fala Baixo Senão Eu Grito, Doce Deleite, Brincando em Cima Daquilo. Atuou também em musicais e revistas: My Fair Lady (como dançarina), Ópera dos Três Vinténs, A Pequena Notável, De Cabral a JK, A estrela Dalva e Elas por elas. Como produtora e diretora, assinou, entre outros espetáculos, O mistério de Irma Vap, um dos maiores sucessos do teatro brasileiro.
Em fase de retomada do cinema brasileiro, Marília Pera atuou em Jenipapo, de Monique Gardenberg, e Tieta, que marca sua segunda parceria com Carlos Diegues, depois do bem-sucedido Dias melhores virão. Depois de intepretar a austera Perpétua, Marília Pera prepara-se para viver o glamour de Maria Callas, na peça Master Class de Terence McNally, um dos maiores sucessos da Broadway dos últimos anos. Luxos de diva.


Entrevista com Marilia Pera

Perpétua é uma personagem fundamental em Tieta - foi ela quem a denunciou, provocando a sua expulsão da cidade. Como você a define?

Eu acho que Perpétua é uma mulher que sofreu muito na infância. Ela teve um pai terrível que odeia as filhas e que tem uma acintosa preferência pela Tieta. Perpétua não teve o afeto do pai, a mãe morreu cedo, e de uma certa forma, ela ficou responsável por aquela família. Apesar de ser muito seca, ela teve um casamento, amou um homem e foi amada por ele, e tudo indica que teve uma vida sexual muito intensa. Depois que fica viúva, colocou todas as esperanças nos filhos. De uma certa forma, este afeto passa pelo dinheiro. Procurei fazer uma Perpétua com olhos mais humanos, ela não é uma bruxa. Eu perdoei a Perpétua.

Você viu a novela?
Na época não, mas no dia que o Cacá me chamou liguei a televisão e vi um capítulo em que inclusive aparecia a Joana Fomm. Mas vendo ou não a novela, o resultado seria completamente diferente, porque eu e a Joanna Fomm somos atrizes completamente diferentes.

Você se inspirou em algum personagem para compor Perpétua?
Acho que ela tem uma força dramática semelhante à Juliana do Primo Basílio. De alguma forma ela é uma sobrevivente, uma mulher que luta para se manter e dar melhor condições de vida para seus filhos - apesar de todo o seu lado religioso e de amor ao dinheiro.

Depois da celebrada retomada do cinema brasileiro você trabalhou em Jenipapo e agora em Tieta. Você gostaria de ter feito mais filmes do que fez?
Eu fui muito pouco convidada para fazer cinema. Na minha juventude, não fui chamada para fazer cinema. Não tinha relação com as pessoas do cinema novo, talvez por que elas achassem que eu não tinha um tipo certo para fazer cinema. Além de ser pouco convidada, ganha-se muito pouco para fazer cinema. Então é preciso procurar outros meios, outros veículos, como a Tv e o teatro para sobreviver. Só depois do prêmio internacional com o Pixote, passei a ser mais convidada, mesmo assim, nem tanto.

E você gosta de fazer cinema, de interpretar para a câmera?
Gosto muito. O que não gosto, seja no cinema ou na tv, é de esperar, porque esperar, principalmente em situações de desconforto, me deixa um pouco irritada. Outra coisa que acho terrível é a falta de controle que o ator tem sobre o resultado final - tudo no cinema está nas mãos do diretor. Quanto a trabalhar em ordem cronológica ou não, é uma questão de organizar a emoção tecnicamente, não tem problemas. Como diretora, procuro entender o trabalho como um todo, mas o ator, na verdade, não tem nenhuma autoridade sobre o resultado final.

E como a Perpétua que você interpretou viu Tieta?
Perpétua é loucamente apaixonada por Tieta. Ela queria ser a Tieta, tem o mesmo fogo sexual, e morre de inveja porque Tieta consegue colocar esse fogo para fora. Quando Tieta vai embora, o mundo de Perpétua acaba, apesar de recriminar tanto a irmã. Na época da filmagem eu estava lendo sobre espiritismo e reencarnação, e botei na cabeça que em uma outra encarnação Perpétua foi um homem apaixonado por Tieta, ou foi uma uma mulher apaixonada por Tieta que foi um homem, qualquer coisa nesse sentido. Na verdade, Perpétua é louca de paixão por Tieta.


Filmografia - Marilia Pera

1969 O donzelo
1970 O homem que comprou o mundo
1971 É Simonal
1975 Ana, a libertina
1975 O rei da Noite
1978 O grande desbum
1980 Pixote
1982 Bar Esperança, o último que fecha
1983 Areias sagradas
1986 Anjos da Noite
1988 Dias melhores virão
1995 Jenipapo


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