Aos 25 anos, Cláudia Abreu
é uma das maiores revelações de sua geração. Proveniente do grupo Tablado, onde estudou
dos 10 aos 16 anos, participou de várias peças infanto-juvenis. Em 1986, atuou em
O despertar da Primavera, de Frank Wedekind , com direção de Cacá Mourthé, que
lhe rendeu um convite para a novela Hipertensão, na Tv Globo, seguida de O Outro e Fera radical.
Conciliando teatro e tv,
Cláudia Abreu fez Orlando, com direção de Bia Lessa, Ela odeia mel, de Hamilton Vaz Pereira, e
em 1991, aos 20 anos, aceitou o desafio de interpretar o papel título de Um certo Hamlet, com
direção de Antonio Abujamra, desafio que enfrentou com rara garra e coragem, e que considera
"um divisor de águas" em sua carreira. No teatro fez ainda Ela odeia Hamlet (direção de José
Wilker) e Viagem ao centro da terra, novamente com Bia Lessa. .
Depois de elogiadas atuações nas novelas Barriga de Alugel e
Que rei sou eu, Cláudia Abreu foi definitivamente consagrada na minissérie
Anos Rebeldes, de Gilberto Braga, exibida no tumultuado período que antecedeu o
impeachment do presidente Collor. . Como Heloísa, a filha de família rica que adere
à luta armada, Claudia Abreu foi "eleita" a "musa dos caras pintadas". Na TV, participou também
de Pátria Minha (Gilberto Braga), e de episódios de Comédia da Vida Privada (direção de Guel Arraes), e
A vida como ela é (direção de Daniel Filho).
Apesar do
sucesso na Tv e no teatro, Cláudia Abreu faz parte de uma geração que cresceu distanciada do cinema:
"Cheguei a pensar que nunca faria um filme", admite a atriz.
Se Um certo Hamlet foi um divisor de águas em sua carreira no teatro,
Cláudia Abreu tem certeza de que interpretar Leonora também representa uma
nova guinada - pessoal e profissional. Depois de Tieta, onde interpreta a doce e
sofrida Leonora, Claudia Abreu participou de mais dois filmes: Ed Mort, de Alain Fresnot,
no papel de uma apresentadora infantil, e O que é isso companheiro, de Bruno Barreto,
onde interpreta a guerrilheira Renée. Descontando o tempo perdido longe das telas,
Cláudia se prepara para um novo projeto: Canudos, com direção de Sérgio Rezende,
no qual interpreta Luíza, uma sertaneja que se agrega ao bando para matar Antônio Conselheiro.

Você começou muito cedo a fazer tv e teatro
e com muito sucesso. Você também queria fazer cinema?
Fazer cinema sempre foi um sonho. Fiz teatro
e televisão, e as coisas não ficam. As pessoas viram ou não viram, e passa.
O cinema fica - o teu trabalho, bom ou ruim, fica.
A minha geração foi a primeira que não teve nenhuma possibilidade de cinema.
A anterior - formada por Débora Bloch, Malu Mader, Guilherme Fontes - foi a
última que teve alguma chance - logo depois o cinema acabou. Me senti órfã
e pensava "será que eu não vou ter essa chance de fazer cinema?" Há também
a questão da idade: papéis que eu poderia ter feito e já passou. Já pensou quantas
ninfetinhas do Nelson Rodrigues eu poderia ter feito?
E como foi estrear no cinema com Tieta?
Tieta foi um projeto muito especial, de uma
química rara que aconteceu entre o diretor, o elenco, o texto, a equipe
técnica, as locações. Filmar em locação pode ser a maior "roubada"- ou
todo mundo se adora e vira uma família, ou fica todo mundo meio entediado.
A química aconteceu e deu tudo certo. Para mim foi uma experiência pessoal
e profissional maravilhosa e marcante, não só por estrear no cinema, como por
tirar férias de tudo, em uma situação de tempo suspenso.Foi ótimo.
Você estranhou estar representando para cinema?
Tive todas as estranhezas. Trabalhar a emoção é infinitamente
mais fácil no teatro e na Tv porque é corrida, é contínua. No cinema o trabalho da emoção
é take a take, exige uma concentração muito grande para não deixar a emoção ir embora.
Na tv e no teatro, a cena corre inteira, você está inteira. No cinema, como é tudo muito
cortado, se corre o perigo de não ter a continuidade, de esvaziar. Além disso tem as
repetições, que exigem remontar toda a parafernália - e você deve segurar e repetir a
emoção. Cinema é uma coisa de muito capricho, muito demorada. Li no livro de Marlon
Brando que a coisa mais difícil para um ator de cinema é saber a hora de esvaziar e a
hora de esquentar. Às vezes eu ficava nervosa e pensava, meu Deus, já fiz tantas
cenas semelhaates na Tv, por que não relacho? Por causa da espera. Curiosamente,
achei o teatro muito mais parecido com a tv do que cinema - o fato de ser totalmente
fragmentando - muitas vezes, uma cena é feita em três dias.
Você gostou?
Adorei. É um super-exercício, sobretudo na questão da concentração.
Como tinha muita vontade de fazer cinema, acabei fazendo três seguidos (Ed Mort, de Alain Fresnot e
O que é isso companheiro, de Bruno Barreto) e ainda não vi nenhum. Quando penso na tela enorme,
fico com medo de ter exagerado ou de ter feito pequeno demais.
Como você define a Leonora?
Tudo que ela queria ser era o peixe que vendeu para
o Ascânio. Leonora é romântica, quer uma vida comum. Ela é muito infeliz, o
lance dela todo é o amor. Quando chega naquela cidade do interior, naquele
povoado, encontra o Ascânio, encontra tudo que ela quer. Seu sonho é simples,
ela é muito simples, o que a torna mais complexa é ter um segredo que não pode revelar.
Como foi trabalhar com Sônia Braga? De todas as personagens,
você é a mais próxima dela. O que você vê em comum entre Tieta e Leonora?
No começo fiquei um pouco receosa de trabalhar ao lado
da "estrela Sonia Braga". Mas fiquei apaixonada por ela, que é uma pessoa e uma
atriz extremamente generosa.
Quanto à Tieta, não acho que ela seja como a Leonora. Tieta não voltou para se
vingar, mas para ser amada. A carência da Leonora é diferente - é a de quem teve
uma vida muito dura. Quando ela diz para Leonora "não se apaixona que é roubada",
ela também está falando para ela. Tieta adquiriu jogo de cintura, mas vai embora mordida.
Ela não vai numa boa, mas tem uma coisa positiva, de tocar para frente. Ela é mais safa,
mais esperta do que a Leonora.
O que você achou da mudança do final -
Leonora e Ascânio ficam juntos, enquanto no livro ela parte com Tieta?
Achei ótimo - Leonora já tinha sofrido tanto. Se
não tivesse final feliz Leonora iria passar o filme todo com cara de infeliz, e
ela não merece. A mudança do final foi uma licença poética com a qual concordo inteiramente..

| 1996 |
Ed Mort |
| 1996 |
O que é isso companheiro |
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