Título:  Zézé Motta Zézé Motta Entrevista Filmografia

"Carmosina é useira e vezeira em guardar segredos, em baralhar pistas, em impedir a circulação completa ou parcial de determinadas notícias, causando grave dano às xeretas do adro da Igreja e à população de Agreste em geral pois quem não se mete com a vida alheia, não pergunta, não conta, não comenta? Se exceção existe, não conheço. Falar da vida alheia é a diversão principal do lugar, grosseria e mau caráter de uns, arte e sutileza de outros"

Tieta do Agreste, Jorge Amado
Consagrada como uma das melhores atrizes brasileiras com Xica da Silva, em 1976, filme que atingiu quatro milhões de espectadores, Zezé Motta tem em Tieta do Agreste sua quarta parceria com o diretor Carlos Diegues, depois de Quilombo e Dias melhores virão. Desta vez, a atriz interpeta a alegre solteirona funcionária dos Correios de Sant'Ana do Agreste, personagem fundamental na costura de várias tramas da história. "Carmô é super alto-astral. Ela não casou, mas não sofre com isso. Ela não perdeu as esperanças e é uma fofoqueira de mão cheia", define. A participação de Zezé Motta em Tieta, no entanto, não se restringe à sua atuação como atriz. Convidada por Caetano Veloso, cantará, junto com o compositor, uma das sete canções feitas para o filme, Miragem de Carnaval.
Zezé Motta, estreou como atriz na polêmica peça Roda Viva, de José Celso Martinez Correa em 1967. Desde então dividiu-se entre o teatro, a tv, o cinema. A partir de 1978 iniciou uma bem-sucedida carreira como cantora. .
Uma das atrizes mais versáteis e originais do cinema brasileiro, Zezé Motta transformou-se em símbolo da negritude sensual, ao mesmo tempo forte e brejeira. Atuou em mais de 20 filmes, entre eles A rainha diaba (de Antonio Carlos Fontoura), Vai trabalhar vagabundo (de Hugo Carvana) , A força de Xangô (de Iberê Cavalcanti) , Tudo bem (de Arnaldo Jabor), Águia na Cabeça (de Paulo Thiago), Jubiabá (de Nélson Pereira dos Santos), e na produção venezuelana El mestizo, de Mario Handler. Seu último filme foi rodado em Cabo Verde - O testamento do Sr. Napomuceno da Silva Araújo, primeiro filme oficial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Com vários discos gravados - Zezé Motta, Negritude, Dengo, Frágil Força, Chave dos Segredos - a atriz e cantora foi várias vezes convidada pelo Itamarati para representar o Brasil no exterior, em países como Alemanha, Estados Unidos (no Carnegie Hall, em Nova Iorque), França, Venezuela, México, Chile, Argentina, Angola e Portugal.


Entrevista com Zézé Motta

Em Tieta você interepreta Carmô uma solteirona, repetindo o papel de Dias Melhores virão, bem diferentes dos tipos sensuais que marcaram sua presença no cinema.

Pois é, em Dias melhores virão eu já tinha feito uma solteirona, agora faço Carmô. Para uma atriz, mudar é uma possibilidade maravilhosa. Sempre fui chamada para fazer personagens brejeiras, sensuais. É meio desconfortável fazer sempre o mesmo papel - já não sou mais vista como símbolo sexual - talvez seja condizente com uma nova fase da minha vida (sua gargalhada no entanto, nega completamente qualquer suspeita neste sentido).

E você está convivendo bem com essa nova fase?
Muito bem - tudo tem seu tempo. Na Tv, nos últimos anos, fiz quatro mães seguidas, em Kananga do Japão, Pacto de Sangue, Mãe de Santo e A próxima vítima. E, pelo visto, também ando me especializando em solteironas. Em O testamento do Sr. Nepomuceno, faço a governanta do personagem principal, um papel ótimo.

Quem é Carmô?
Não tem a viúva alegre? Pois ela é a solteirona alegre. Carmô não se casou nem sofre com isso e, muito importante, não perdeu as esperanças. Ela é alto astral e continua à espera do príncipe encantado. É uma fofoqueira de mão cheia, uma "danadinha". No começo, admito, tive uma certa dificuldade quando experimentei os figurinos e pensei: "Como vou fazer essa mulher que não tem glamour nenhum?" Mas aos poucos fui entrando na alegria de Carmô, na verdade uma pessoa muito simples. Naquela simplicidade, um colar podia ter um peso muito grande. E também achei que a Carmô era dessas pessoas que anda sempre perfumada, e que escolheria Matinal, uma colônia tipo Alfazema - e filmei todas as cenas perfumadas. No fundo, Carmô é muito coquete, gosta de se enfeitar. E está sempre com os olhos brilhando.

E como você vê a Tieta?
De tempos em tempos no mundo aparecem mulheres muito especiais, como Josephine Baker, Carmen Miranda, Leila Diniz, mulheres que excercem grande poder de mudança. Tieta certamente faria parte dessa turma, assim como a própria Xica da Silva - mulheres que destoam, que transgridem.

Cantar no filme é uma responsabilidade a mais?
Essa eu tiro de letra, embora tenha ficado super-emocionada . Fiquei muito emocionada ao ser convidado por Caetano para cantar Miragem de Carnaval, uma música lindíssima. Minha carreira de cantora está muito ligada ao cinema. Já gravei várias músicas de filmes, inclusive Pecado Original, que Caetano fez para A dama do lotação. Também cantei nos filmes Tudo bem, Natal da Portela e O Cortiço.


Filmografia - Cláudia Abreu

1971 A Rainha Diaba
1973 Vai trabalhar vagabundo
1976 Xica da Silva
1976 Cordão de ouro
1977 A Força de Xangô
1978 Tudo bem
1982 A serpente
1983 Para viver um grande amor
1983 Águia na cabeça
1984 Quilombo
1985 Jubiabá
1986 Anjos da Noite
1987 Prisioneiro do Rio
1987 El Mestizo
1988 Dias Melhores Virão
1988 Gato de Botas
1989 Sonhos de Menina Moça
1989 Natal da Portela
1996 O testamento do Sr. Nepomuceno da Silva Araújo


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