Recriar a imaginária
cidade de Sant'Ana do Agreste foi um dos muitos desafios enfrentados pela diretora de arte Lia Renha, que trabalhou
em estreita colaboração com o diretor Carlos Diegues, a figurinista Luciana Braga e o fotógrafo Edgar Moura.
Inventada por Jorge Amado, Sant'Ana do Agreste foi recriada na vila de Picado, a vinte minutos de Feira de
Santana, na Zona da Mata baiana. A segunda locação principal - Mangue Seco - estava bem preservada
com suas dunas brancas, coqueirais e praias intermináveis.
Lia Renha
explica o ponto de partida para a criação de Sant'Ana do Agreste: "Decidimos abandonar o convencional estilo
colonial baiano, dos sobrados de Salvador, e apostamos em uma art decô nordestina, marcada pela arquitetura
de platibandas, típica das cidades do interior do Nordeste. Neste sentido, o livro Pinturas e platibandas, de Ana
Marianni, foi uma importante referência visual".
Outra fonte
de inspiração foi a pintura brasileira dos anos 20 aos 40 de artistas como Volpi (sobretudo o quadro Bandeiras do Brasil),
Cícero Dias (painel 'Eu vi o mundo que começava no Recife, inspirado em poemas de Manoel Bandeira), ou o famoso
quadro Frevo, de Lula Cardoso Aires, entre outros.
A partir de
exaustivas conversas com Carlos Diegues, e intensa pesquisa de referências visuais e elaboração de detalhadas
maquetes, Lia Renha partiu para a execução de Sant'Ana do Agreste. Para começar, mandou pintar todas as 117
casas de Picado em elaborado processo artesanal, que consistia de várias camadas de tintas lixadas e banhadas
em cal. "O resultado desta recriação artesanal é uma cidade de aquarela, em que não aparece um só branco, e
que tem uma total alquimia com os habitantes do local", afirma.
Os interiores
também foram intensamente pesquisados. A casa da Perpétua, por exemplo, deveria aproximar-se de uma sacristia.
Para isso, Lia Renha procurou e adaptou móveis encontrados em antiquários, lojas e casas de pessoa. "Não queríamos
que nenhuma casa do filme parecesse criação cenográfica, e sim ambientes vividos, reais", diz Lia Renha. A direção
de arte incluiu uma grande produção de artigos de palha, taipa, barro e madeira, com vários objetos criados por artesãos
ocais. A construção da "favelinha" foi feita com taipa real, de tronquinhos: "Só usei coisas da terra", assegura.
Para Lia Renha
, que já havia trabalhado com Carlos Diegues em Um trem para as estrelas e Dias Melhores virão, o convite para Tieta
veio de encontro a uma fase de extrema "brasilidade" que vivia há dois anos, desde que foi chamada para o projeto
Brasil especial, de Guel Arraes. "Viajei muito, mas foi principalmente pelo contato com o povo brasileiro que realizei uma
"viagem emocional" que me permitiu retirar vários filtros intelectuais e me livrar de preconceitos quanto ao que era belo,
kitsch ou cafona", lembra Lia Renha. E conclui: "Quando o Cacá Diegues me convidou, entramos imediatamente em
fina sintonia. Ele é o cineasta e a pessoa mais apaixonada pelo Brasil que eu conheço. Como eu estava na mesma
viagem, pudemos colocar na tela uma brasilidade inconfundível. Foi tudo criado para que o filme tivesse a cor e o
astral do povo brasileiro: uma aquarela pintada de cal".
Formada em
Arquitetura, Lia Renha fez um curso de extensão em cenografia na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, onde foi
aluna de Carlos Ripper e Marcos Flaksman. Com vasta experiência em publicidade, também fez cenografia para teatro
(Odeio Hamlet, Algemas de ódio e O homem da Pizza) e para a tv, como episódios da Comédia da Vida privada e a
série Brasil Especial, inspirada apenas em autores brasileiros. Seu primeiro filme foi Blame it on Rio (direção de Stanley
Donen). Em seguida fez Dedé Mamata de Dodô Brandão, Atrapalhando a Suate (de Vítor Lustosa e Dedé Santana),
Um trem para as estrelas e Dias melhores virão (Carlos Diegues). Seu próximo trabalho é a direção de arte da minissérie
D.Flor, com direção geral de Carlos Manga.
|