Com 106 filmes
em seu currículo - como ator, diretor e produtor - Jece Valadão encontrou em Tieta do Agreste um papel raro em sua longa
carreira: o de bonzinho. Como o Comandante Dário, que abandona a Marinha para desfrutar a tranqüilidade de Mangue Seco,
Jece Valadão tem uma atuação sóbria, com direito a discursos ecológicos e preocupações sociais:
"Eu estava destreinado de fazer o bonzinho. Aliás, o único que tinha feita, no filme Obsessão, que eu mesmo dirigi
em 1973. Como não deu certo, eu nunca mais arrisquei outro".
Com passagem pelas
chanchadas no início dos anos 50, Jece Valadão foi um nome fundamental do cinema novo, com interpretações marcantes
em Os Cafajestes ( Ruy Guerra), Rio 40 Graus, Rio Zona Norte e O Boca de Ouro (Nélson Pereira dos Santos), Idade da Terra
(Gláuber Rocha). Sempre identificado com personagens machões, marginais e violentos, típicos de Nélson Rodrigues e Plínio
Marcos, Jece Valadão também atuou em Asfalto selvagem (J.B.Tanko), Bonitinha mas ordinária (J.P.Carvalho), Mineirinho vivo
ou morto (Aurélio Teixeira), Navalha na Carne (Braz Chediak), além de dezenas de outros títulos. Também fez incursões pela
direção, assinando entre outros filmes, Procura-se uma rosa (1964), As sete faces de um cafajeste (1969), Nós, os canalhas
(1975) e A noite dos assassinos (1976).
Apesar de sua ligação
com o Cinema Novo, Tieta do Agreste representa seu primeiro filme com Carlos Diegues. Jece Valadão garante que o
convite para interpetar o equilibrado Comandante Dário veio de encontro não apenas a seu grande desejo de voltar a
fazer cinema como também a uma mudança interior". Seu último filme, realizado em 1982, A Serpente foi dirigido pelo
filho Alberto Magno. Inspirado em Nelson Rodrigues, nunca chegou a ser exibido.
"Senti muita falta
de cinema - admite o ator. "Me mudei para São Paulo, deixei de produzir e o cinema brasileiro deixou de me chamar".
Considera Tieta como "uma volta maravilhosa": "Nunca tinha trabalhado com o Cacá, o elenco todo é de primeira qualidade,
sem falar no nível da produção que eu nunca tinha tido, com todos os recursos. Foi uma volta excelente - em todos os sentidos".
Um desses sentidos
refere-se ao novo estado de espírito de Jece Valadão, agora voltado ao encontro com Jesus: "É incrível como a minha
mudança interior bateu com o personagem, completamente diferente de tudo que já fiz. Esta minha mudança de imagem
não está apenas na tela. Acredito que mudanças pessoais acabem provocando mudanças profissionais. E Tieta é uma prova."
UEntusiasmado com a
retomada do cinema brasileiro, Jece Valadão, depois de um longo jejum, atuou também na refilmagem de O
cangaceiro,de Anibal Massaini, no qual interpreta Joca Leitão, o perseguidor do cangaceiro. Afirmando estar
"com fogo nos cascos" para fazer muitos filmes, Jece Valadão não teme comparações do filme Tieta com a novela.
E garante: "O filme é muito melhor".
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