O romancista
baiano João Ubaldo Ribeiro não esconde de ninguém a aversão que tem de fazer roteiros. "Sou muito solto e roteiro
prende demais", justifica. Apesar da rejeição à tarefa, ele conta como foi convencido por Carlos Diegues, amigo de
muitos anos, a adaptar Tieta do Agreste para o cinema: "Cacá me ligou e me deixou preocupado. Disse que tinha
um assunto muito sério para falar comigo. Veio me ver com um ar sinistro, fêz um prólogo e me pediu para que colaborasse
com ele na adaptação de "Tieta". Fiquei tão aliviado - pensei que ele fosse me pedir um rim - que concordei"
João Ubaldo Ribeiro,
autor de Viva o povo brasileiro, O sorriso do lagarto, Sargento Getúlio, Um brasileiro em Berlim, entre outros títulos que lhe
valem a fama de "herdeiro espiritual de Jorge Amado", garante que se dedicou à missão com total liberdade. "Aprendi com
o próprio Jorge a não me meter em adaptações dos meus livros, e não fiz cerimônia para adaptar o dele", revela. Já Carlos
Diegues, trabalhando pela primeira vez com uma adaptação literária, confessa que no início ficou inibido: "Eu tenho pela
literatura brasileira um respeito quase que religioso", inibição desfeita também por Jorge Amado ao lhe dar "liberdade total"
para o projeto.
A adaptação do caudaloso
romance de 700 páginas com centenas de personagens levou quase um ano, e rendeu pelo menos seis versões do roteiro, em
um trabalho de síntese e compilação. "Optamos por centralizar a ação em Tieta e sua família", definiu o diretor. João Ubaldo
lembra que, de um modo geral, Cacá dava o primeiro tramento: "O esqueleto dramatúrgico foi feito principalmente por ele.
Eu sou o homem das falas, dos diálogos". Antonio Calmon, diretor de cinema (Terror e êxtase, Menino do Rio, entre outros)
e autor de novela (Cara e Coroa, Olho por Olho, Vamp) incorporou-se à equipe e ajudou a escrever a versão final do roteiro.
João Ubaldo não teme
comparações com a novela: "Quase não vejo televisão, e acho o Brasil um país esquisitíssimo, porque é o lugar do mundo em
que mais se discute Tv. Não vi a novela, mas acho que, por definição, o filme é um produto completamente diferente".
ECom um livro adaptado
para o cinema - Sargento Getúlio, dirigido por Hemano Penna, João Ubaldo diz que não se mete em adaptações de suas obras.
E lembra: "Apesar de não ter gostado do que a tv fez com O sorriso do lagarto, não reclamei". Também teve adaptados para tv
os contos O compadre de Ogum, O santo que não acreditava em Deus, A maldita inspiração patrocinando as artes, e O poder
e a arte da palavra.
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