"Tieta é um filme sobre a necessidade de ser amado"
"Tieta fala de uma mulher que foi expulsa de sua
cidade adolescente e que volta 26 anos depois rica e poderosa. O tema da volta é uma situação dramática clássica: está na Bíblia, em Shakespeare,
em Dürremat e está sempre ligado a um desejo de vingança, a um acerto de contas. O genial no romance de Jorge Amado é que Tieta
não volta para se vingar, mas para ser amada"
Carlos Diegues define assim a trama
central de Tieta do Agreste, seu 13o. longa-metragem inspirado no romance de Jorge Amado.
Esta primeira experiência com uma adaptação literária não poderia ser mais coerente com seu percurso cinematográfico.
Assim como o escritor baiano, o diretor sempre teve como motivação maior um profundo interesse pela alma brasileira.
E, como em Jorge Amado, a obra de Carlos Diegues também está marcada por fortes personagens femininos, presentes em
A grande cidade, Joanna Francesa, Xica da Silva, Bye bye Brasil, Dias melhores virão.
Um dos fundadores do
Cinema Novo, ao lado de Glauber Rocha, Leon Hirszman, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra,
entre outros, Carlos Diegues, em mais de 35 anos de atividade, desenvolveu um percurso extremamente ativo, como diretor e
produtor, com filmes marcantes tanto no Brasil como no exterior. Sempre trabalhando sobre roteiros originais, o diretor criou uma
galeria de personagens inesquecíveis. Xica da Silva, interpretado por Zezé Motta, atingiu quatro milhões de espectadores - um
dos maiores sucessos de bilheteria do país - seguido por Bye-Bye Brasil, metáfora sempre atual de um país em transformação.
Batalhador incansável do cinema brasileiro, Cacá Diegues sempre esteve no centro do debate cultural do país e de busca de
alternativas de produção. Veja esta canção, seu filme anterior, foi co-produzido pela TV em uma experiência inovadora e bem-sucedida
de busca de um formato que anunciava dias melhores para o cinema.
Tieta do Agreste marca o
primeiro encontro de Carlos Diegues com Sonia Braga nas telas. Amigos de muitos anos, Sonia, que tinha sido a escolhida do
Jorge Amado para o filme, convidou Cacá para dirigi-la nesta sua volta ao Brasil. Na imaginária cidade de Sant'Ana do Agreste,
cenário de uma exuberante brasilidade, estão presentes contradições históricas, como cordialidade e hipocrisia, arcaísmo e
modernidade, progresso e atraso, violência moral e física focalizadas, sobretudo, a partir do ponto de vista de quatro mulheres:
Tieta (Sonia Braga), Perpétua (Marília Pera), Leonora (Cláudia Abreu) e Carmô (Zezé Motta).
Carlos Diegues assegura
que o projeto de Tieta, minuciosamente preparado em todas as suas partes, foi acima de tudo um grande prazer, associado ainda
à festejada retomada do cinema brasileiro. Avisa que o filme não tem nada a ver com a novela "são coisas completamente diferentes".
E fica duplamente feliz pela coincidência de que a sua necessidade autoral atende também a uma expectativa do mercado internacional:
"Só vejo uma esperança para o cinema brasileiro: ser brasileiro. Ou fazemos uma coisa que só nós sabemos fazer ou não tem sentido fazer cinema".

Qual a sua ligação com Jorge Amado?
Sempre quis realizar um filme baseado em Jorge Amado,
inclusive o próprio Tieta, pelo qual me interessei quando foi publicado, no final dos anos 70.
Nos anos 80, tentei adaptar A morte e a morte de Quincas Berro d'Água.
Nenhum desses projetos se viabilizou. Apesar de nunca ter filmado com Sonia Braga,
somos amigos há muitos anos. Quando ela me disse que Jorge Amado lhe oferecera os
direitos de filmagem e me convidou para dirigir, aceitei na hora.
Como foi trabalhar pela primeira vez com uma adaptação literária?
No começo, fiquei muito inibido. Minha única aproximação neste sentido foi Ganga Zumba,
inspirado em parte do livro de João Felício dos Santos.Na minha casa, muito em função do meu pai, se respirava
literatura brasileira, pela qual sempre tive um respeito religioso. Essa inibição inicial foi quebrada graças ao próprio
Jorge Amado, que me deu liberdade total, dizendo "você não interferiu no meu livro, não vou interferir no seu filme".
Ele sempre disse que gostava muito dos meus filmes, acho que é porque eles têm muito a ver com o universo amadiano,
marcado por uma dramaturgia mais preocupada com personagens do que com a trama, e também por essa busca da alma brasileira.
Mas o que significou esse "respeito quase religioso"?
Uma fidelidade total ao texto de Jorge Amado?
Já declarei publicamente o que disse a ele: para ser fiel
ao espírito de Jorge Amado, vou ter que trair o texto de Jorge Amado.
A adaptação do livro para a tela, com tudo o que isso significa de alteração
no romance, não pode ser álibi para a traição do que ele tem de mais profundo
e essencial. A solidariedade de Jorge Amado ao filme se traduz não só pela liberdade
total que nos deu, como por aceitar o convite para participar fisicamente do filme.
A primeira cena de Tieta é uma homenagem de Jorge Amado lendo o primeiro parágrafo
do romance. No final, sua voz reaparece para ler a última frase do livro.
De nosso lado, decidimos homenageá-lo inserindo vários personagens e
citações de outros romances, como Dona Flor e seus dois maridos
(o teatro de bonecos no pátio do Coronel), Quincas Berro d'Água
(o freguês que grita por água no botequim da cidade), Jubiabá
(o velho negro que dá uma figa para proteger o menino negro), entre outros.
Nem o Jorge Amado sabe disso - vai ser uma surpresa para ele.
No livro, Leonora parte com Tieta, enquanto no filme, ela tem
direito a um final feliz com Ascânio. O que provocou essa mudança?
Considero Tieta o livro mais feminista de Jorge Amado,
em que toda a ação é contada do ponto de vista da mulher. Por isso, achei muito
pessimista o livro terminar daquela maneira, em que todas mulheres se dão mal.
A independência da mulher não está só na metáfora da prostituição, e eu queria
que pelo menos Leonora realizasse o seu projeto de amor. Consultei Jorge Amado
e ele concordou. Esta mudança foi justamente a primeira coisa que me veio ao trabalhar o roteiro.
A Leonora não podia terminar daquele jeito - o amor também deveria se realizar, vencer, redimir.
Que aspectos contemporâneos você assinala em Tieta do Agreste?
A história de Tieta apresenta uma situação dramática clássica: a volta
à cidade natal para se vingar, para um acerto de contas, está na Bíblia, em Shakespeare, em Dürrenmat.
O genial no romance de Jorge Amado é que Tieta volta para casa rica e poderosa, mas não para se
vingar e sim para ser amada . Ela chega à cidade como uma rainha - mas não pensa em vingança.
Embora em alguns momentos Tieta se refira com mágoa ao passado, ela não consegue transformar
esse sentimento em um gesto agressivo. No fundo, Tieta é uma história sobre a necessidade de ser amado
Você sempre foi um cineasta muito ligado à realidade brasileira.
Tieta teria relação com o Brasil de hoje?
Na essência, os personagens de Tieta expressam uma angústia
contemporânea - a dificuldade de viver e sobreviver em meio a tantas contradições.
Sant'Ana do Agreste é uma metáfora muito clara de uma condição brasileira: todo mundo
está mentindo o tempo todo. E embora o filme não fale de aspectos específicos do Brasil de
hoje, apresenta um quadro de contradições históricas, como cordialidade e hipocrisia, arcaismo
e modernidade, progresso e atraso, violência moral e física.
Antes de virar filme, Tieta foi uma novela de sucesso.
Como você encara essa questão?
Quero deixar claro que o filme não tem nada a ver com a
novela, que tinha cerca de 200 capítulos equivalendo a 120 horas de duração.
Seus autores, portanto, tinham que esticar o enredo, criar situações que não existiam,
engordando ainda mais o livro de 700 páginas. O filme, ao contrário, transformou o livro
em um roteiro de 120 páginas, e caminhou na direção oposta, compactando personagens
e situações, reduzindo-as ao mínimo necessário, e eliminando o vasto painel de tipos e
situações. Em um certo sentido, Tieta aproxima-se mais do livro, pois volta à fonte original
da qual a novela foi obrigada a se afastar. Para mim, isso não significa que a novela seja
melhor ou pior do que o filme, mas que são dois produtos totalmente diferentes, vindos da
mesma fonte - o livro de Jorge Amado.
E que princípios nortearam esse trabalho de síntese?
Para escrever o roteiro de Tieta nunca pensei em outra pessoa
que não fosse João Ubaldo Ribeiro, extraordinário escritor baiano, espécie de herdeiro
de Jorge Amado. Trabalhamos juntos por quase um ano, criando meia dúzia de versões
do roteiro. Antonio Calmon ajudou na versão final. Nossa opção foi concentrar a história
no personagem de Tieta e suas relações com a família. Os habitantes de Sant'Anna do
Agreste, o painel de cidade do interior, típico da obra de Amado, ficaram em segundo plano.
Ainda diferente da novela, o tratamento dado ao filme é muito menos caricato e extrovertido.
Tieta está mais próximo de uma comédia romântica de costumes do que de uma comédia
escancarada, como foi a novela. Mais uma vez, insisto, isso não quer dizer que a versão do
filme seja superior à da novela, apenas que é completamente diferente.
E foi também para marcar essa diferença que não há nenhum ator da novela no filme?
Fiz questão de não usar nenhum ator da novela, não só porque o filme
é completamente diferente, como porque uma novela, sobretudo como Tieta, estabelece um tipo
de interpretação diversa da que eu queria. Seria muito difícil, por exemplo, chamar a Joanna Fomm,
atriz extraordinária que criou uma Perpétua engraçadíssima, e fazê-la modificar sua interpretação,
sobretudo quando foi tão bem sucedida. Na novela, esta irmã mais velha de Tieta é uma verdadeira
bruxa, cheia de maquinações e maus sentimentos. No filme, retomei a Perpétua do livro, retratando-a
de uma maneira mais complexa, considerando-a, em certas circunstâncias, até mesmo uma vítima,
uma pobre mulher tentando salvar os filhos da miséria de Sant'Anna do Agreste.
E como foi trabalhar com o elenco de Tieta?
Um verdadeiro presente. Do elenco feminino, eu só tinha
trabalhado com Marília Pera (Dias melhores virão) e Zezé Motta (Xica da Silva, Quilombo,
Dias melhores). Embora nunca tenha feito um filme com Sonia Braga, nosso planos nesse
sentido eram antigos. Cláudia Abreu estréia no cinema como Leonora e certamente vai surpeender.
Jece Valadão volta ao cinema depois de muitos anos e trabalhamos juntos pela primeira vez.
Também teve a volta de Chico Anísio, depois de 25 anos sem filmar. Como Zé Esteves,
pai de Tieta, ele desenvolve um excepcional trabalho de ator, completamente diferente de
suas criações como humorista de tv. O filme contou ainda com outros atores do Rio, como
Patrícia França, León Góes, André Valle, Heitor Martinez Mello, mas a grande maioria do
elenco foi formada por atores baianos.
Como você situa Tieta no conjunto de sua obra?
Quando faço um filme, não penso muito nos anteriores, e nem
tenho uma teoria específica sobre o que estou fazendo. Cada filme é uma nova aventura
que deve ser vista como tal, embora a base seja sempre a minha curiosidade em relação
a algum aspecto da vida brasileira. Acredito que Tieta seja o meu melhor filme, por sintetizar
algumas idéias que tenho sobre o espetáculo cinematográfico, que nesse caso quis construir
como uma rapsódia - uma coisa levando a outra, inclusive pela trilha e pelas músicas de Caetano Veloso.
Mas, como Xica da Silva, Tieta está centralizado em forte personagem feminina.
Desde A Grande Cidade, passando por Joana Francesa, meus filmes têm um
ponto de vista feminino forte. Em Tieta temos o ponto de vista de quatro mulheres - Tieta (Sonia Braga),
Perpétua (Marília Pera), Leonora (Cláudia Abreu) e Carmosina (Zezé Motta). Neste sentido, pode-se aproximar
Tieta de Xica da Silva. Mas talvez pela construção rapsódica, Tieta também se aproxime de Bye Bye Brasil,
que considero extremamente amadiano.
Quais as suas expectativas com relação a Tieta?
É muito difícil falar de um filme que ainda não foi para a tela, mas
posso dizer que estou muito satisfeito. Tieta foi muito estudado em todas as suas fases de
preparação - do roteiro à direção de arte, à preparação do elenco - o filme tem 65 personagens -
fora os figurantes. O projeto contou com o apoio do Banco Real, e com um empenho excepcional
do produtor Bruno Stroppiana. A direção de arte de Lia Renha, que trabalhou em conjunto
com a Luciana Buarque e o fotógrafo Edgar Moura, também me fez muito feliz. Criamos uma
Sant'Anna do Agreste que nunca existiu: era uma invenção de Jorge Amado. A parceria com
Caetano Veloso também teve um trabalho intenso que precedeu as filmagens, definindo que
seqüências estavam destinadas a canções - e ele criou seis para o filme. Teve ainda os figurinos
maravilhosos de Ocimar Versolato para Sonia Braga. Diante disso tudo, só posso dizer que as minhas
expectativas são as melhores possíveis.
Em fase de internacionalização cada vez maior do cinema,
quais as chances que você acha que um filme de inegável brasilidade, como Tieta, tem fora do Brasil?
Sempre tive a necessidade de entender que território humano
e geográfico é esse no qual a gente vive. Acho curioso que essa minha necessidade autoral
coincide nesse momento com uma necessidade do mercado mundial. Com o domínio avassalador
do cinema americano no mundo, as pessoas estão muito curiosas para ver um cinema diferente,
o que explica, por exemplo, o sucesso do cinema chinês. Acho que só há uma esperança para o
cinema brasileiro: ser brasileiro. Se ele tentar copiar ou se aproximar do que o cinema mundial está
fazendo, está perdido, não vamos interessar a ninguém. Ou fazemos uma coisa que só nós podemos
fazer ou não tem sentido fazer cinema.

| 1959 |
Fuga |
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| 1960 |
Brasilia |
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| 1961 |
Domingo |
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Escola de samba |
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| 1964 |
Ganga Zumba |
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A grande cidade |
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Oito universitarios |
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| 1969 |
Os herdeiros |
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| 1971 |
Receita de futebol |
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| 1972 |
Quando o carnaval chegar |
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Joana Francesca |
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Cinema Iris |
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Bye Bye Brasil |
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Quilombo |
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Um trem para as estrelas |
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Dias melhores virão |
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