" A volta para ser amada.
Incondicionalmente. Fui gulosa, gulosa de homens, quanto mais melhor. Pai tinha muitas cabras, bode inteiro só um, Inácio.
Eu era cabra com várias bodes, montada por esse ou por aquele, no chão de pedras, em cima do mato, na beira do rio,
na areia da praia. Para mim, prazer de homem, só isso e nada mais: deitar no chão e ser coberta"
Tieta do Agreste,
Jorge Amado
Sonia Braga, depois de 12 anos
vivendo nos Estados Unidos, voltou a Jorge Amado e ao cinema brasileiro. Para sempre associada às encarnações perfeitas de Gabriela
(na tv e no cinema) e de Dona Flor e seus dois maridos (recordista de público na história do cinema nacional, com 12 milhões de espectadores),
Sonia Braga voltou para interpretar Tieta, mulher madura de 45 anos, que retorna poderosa e cheia de sensualidade à Sant'Ana do Agreste,
cidade de onde fora expulsa aos 17 anos. Diferente porém de tantas personagens que voltam para se vingar, para acertar contas, Tieta,
segundo a atriz, volta por um motivo muito especial: para ser amada incondicionalmente.
E Sonia Braga voltou retomando o elo
artístico e afetivo com figuras exuberantes do universo amadiano, responsáveis pelo seu status de maior estrela da tv e de cinema nos anos
70 e 80. "Sempre se pode traçar paralelos, achar coincidências. Fiquei muito tempo fora, não tanto como Tieta, mas seja lá o que for, brasileiro
que está fora sempre volta para Jorge Amado - e será sempre coincidência", afirma a atriz.
Além de várias afinidades entre
Sonia Braga e Tieta, o filme que marca sua volta ao cinema brasileiro tem uma força especial em sua longa associação com Jorge Amado:
o escritor lhe cedeu os direitos de filmagem e foi ela quem tomou a iniciativa de levar Tieta para as telas ao convidar Carlos Diegues para
a direção. Aos 46 anos, Sonia Braga assume com muito orgulho o papel de mulher madura super-sexy que exibe nas telas.
E garante: "Foi Tieta quem acabou com o meu exílio cultural".

Como foi que você recebeu de Jorge Amado os direitos de filmagem de Tieta?
Logo depois das filmagens de Luar sobre Parador
(1988) reli Tieta e pensei no filme. Fui para os Estados Unidos para ficar
no Sundance Institute - eu era amiga do Robert Redford - que se interessou
pelo projeto. Liguei para Jorge Amado perguntando sobre os direitos de filmagem.
Ele me disse: "Os direitos são seus". Algum tempo depois, em um festival de cinema
na Itália, em um jantar com vários brasileiros, entre eles, o Jorge Amado e a Zélia,
a Beth Faria me disse que ia fazer Tieta. Olhei para o Jorge Amado que falou
"é só para tv, só para tv". Nem pensei em discutir: o Jorge sabe o que faz.
Voltei para os Estados Unidos e falei a Robert que teríamos que esperar alguns
anos por causa da novela. Mas Tieta me acompanhou esses anos todos.
E como surgiu o convite a Cacá Diegues?
Ele passou por Nova Iorque, conversamos muito,
e eu propus: "Vamos fazer Tieta, você dirige". Ele conseguiu viabilizar a produção
com o Bruno Stroppiana e o Donald Ranvaud (Sky Light). Voltamos a falar com
Jorge Amado, que nos cedeu os direitos.
Por que você convidou o Cacá, com quem você
nunca tinha trabalhado e que nunca tinha dirigido uma adaptação literária?
Cacá é uma das pessoas em que eu mais confio no Brasil.
Como eu estava afim de fazer Tieta, eu perguntaria para ele de qualquer jeito como
amigo, o que ele achava. E já que ele é diretor... Só posso dizer que foi ótimo trabalhar
com ele, que fez um filme muito especial, muito afetivo. Tieta é um dos filmes brasileiros
mais bonito que já foi feito, até porque é super-brasileiro. E o fato do Jorge Amado estar
na tela é uma coisa maior - não é todo o filme que tem o consentimento do autor expresso
pela sua presença física - que considero uma bênção absoluta ao projeto.
Tieta é uma mulher que volta "para casa" depois de 26
anos vivendo uma espécie de exílio em São Paulo. Existe algum paralelo entre essa
volta de Tieta e a de Sonia Braga para fazer cinema no Brasil?
Paralelo sempre tem em tudo. Sempre se pode criar
uma metáfora, traçar paralelos, achar coincidências. Fiquei muito tempo fora, não
tanto quanto Tieta, mas 12 anos, o que já é muito. Essa minha volta tem algumas
coisas parecidas, mas seja lá o que for, ou quem for, brasileiro que está fora sempre
volta para Jorge Amado - e sempre será coincidência.
A que você atribui essa ligação por Tieta? Como você a define?
Eu não defino ninguém, nem personagem. Li o livro, tinha as minhas idéias, depois
conversei com o diretor, li o roteiro, teve a novela, cada um tem a sua visão. Dizer o que eu acho do
personagem acaba funcionando como uma forma de imposição. Como diz o Jorge Amado,
"eu escrevo o livro e depois o livro é de quem lê". Quando acaba o filme, libero o personagem,
desconecto, viro platéia outra vez. Os meus direitos sobre ela terminam com as filmagens. Não
tenho mais domínio sobre Tieta. Ela tem que viver sozinha.
Mas você não pode falar um pouco sobre Tieta? Afinal,
vocês conviveram juntas todos esses anos.
Acho que ela é assim, como eu estou falando. Com uma total
falta de preconceito sobre o que quer que seja. Libertada ou libertária, como quiserem.
Tieta não falaria. Ela ia ficar enrolando como eu estou fazendo. Mas só para dizer
alguma coisa, acho que ela é uma das personagens de Jorge Amado mais amadurecida e completa.
E Gabriela e Dona Flor?
Gabriela é completamente intuitiva, terra, animal.
Dona Flor é sensibilidade e também totalmente sábia. Tieta é tudo - ela
vem da terra, do campo, e o problema dela é justamente conceituar.
A última coisa que eu faria é aprisionar a Tieta em conceitos. Ela não deixa.
Cacá diz que Tieta não volta para se vingar mas para
ser amada. Você concorda?
Completamente. Ela volta sem qualquer pensamento de
vingança e sim para ser amada. Mas ela não está em busca do amor homem/ mulher,
mas de um amor mais amplo, incondicional, como é o amor de mãe, de filho. É esse amor
que ela vem tentar recuperar, porque o que ensina a amar é esse amor incondicional, e
quem não conheceu esse amor vai se sentir mal-amado a vida inteira.
Voltando ao paralelo, Sonia Braga também voltou ao Brasil para ser amada?
Claro. E principalmente para continuar a ser amada, para ficar perto.
Tieta viveu muitos anos isolada, e eu já chamei o meu períoido americano de exílio cultural,
de retiro. Fiquei fora porque não era convidada para filmar ou porque recebia propostas que
me ofendiam. Na verdade, foi Tieta que acabou com o meu exílio cultural. Voltei também
porque foi a primeira vez que senti que tinha um aparato para fazer um filme brasileiro.
O último filme que fiz totalmente falado em português foi Eu te amo (1981). Foi com
Tieta que botei de novo o pé no Brasil.
Você ficou satisfeita com as filmagens?
Fiquei satisfeita com tudo, embora não tenha sido fácil.
A volta teve momentos difíceis, eu tinha terminado uma relação de dois anos e meio.
Fiquei sozinha e inteiramente concentrada no filme. O curioso é que o filme teve várias
voltas - a de Ocimar Versolato, de Chico Anísio e Jece Valadão que não filmavam há muitos
anos. A Tieta teve essa mágica de juntar pessoas. Eu olhava a minha volta via o Cacá, a
Marília Pera, a Zezé Motta, e eu pensava -"meu Deus, que absurdo nunca ter trabalhado
com essas pessoas". Depois teve a música do Caetano que é divina. Tieta teve essa
mágica de juntar pessoas maravilhosas.
Voce gostou da coleção Ocimar Versolato para Tieta?
Adorei. Ocimar desenhou as emoções de Tieta em cores: ela chega cor de laranja
- ousada, quando se apaixona veste vermelho, tem um vestido azul claro que é a coisa mais bonita do mundo.
Na verdade, todas as pessoas envolvidas trabalharam com a maior dedicação. A maquiagem do
Guilherme Pereira também foi sensacional, tive um cabeleleiro que veio de Paris só para medir a
minha cabeça para as perucas. A Lia Renha, minha gurua, na direção de arte, a Luciana Buarque
nos figurinos, o Edgar Moura na fotografia - todos foram de uma dedicacão ao projeto que foi
exaustivamente detalhado, planejado, estudado. Eu sou super-rigorosa em meus trabalhos e
acho que tem que ser assim.
A que você atribui tanto rigor?
À preocupação com o resultado. Sou super-detalhista,
mas sei onde está o limite. Não faço exigências absurdas, mas temos que batalhar
pela qualidade da produção até onde for possível. E esse também era o pensamento
de toda a equipe: a busca de uma extrema qualidade para colocar o cinema brasileiro
onde ele merece estar. Se a gente sabe fazer bem, vamos fazer o melhor possível.
Tem outra coisa: eu gosto de me ver na tela. Assisto tudo a que faço - novela, filme,
e por isso tenho que ser tão exigente: quero gostar do que vejo.
Antes e durante as filmagens, a questão dos quilinhos a mais de Sonia Braga/Tieta
ocupou muito espaço na imprensa. Essa vigilância te incomodou? Ou Tieta poderia ser mesmo mais
roliça e ainda assim super-sexy?
Tieta está super-sexual, maravilhosa. Eu tinha parado de
fumar e engordei mesmo. Concordava que tinha que perder alguns quilos, mas não fiquei super-preocupada.
Aliás, esses quilinhos a mais também eram uma prova de liberdade da Tieta. Afinal, ela é um
personagem baiano de Jorge Amado, e tem 45 anos. Quando eu fui fazer Dona Flor eu tinha
24 anos e 48 quilos. Quando o filme acabou, eu tinha 25 anos e 55 quilos. Há toda uma
questão cultural envolvida. Tieta é uma mulher de verdade, normal, bonita, sensual.
Eu acho ela linda.
Quais as suas expectativas com relação ao filme?
No Brasil só posso esperar que seja recebido com o mesmo amor que a gente
fez o filme. Tieta foi feito para o público brasileiro, e só torço para que os exibidores aprimorem o som e
a projeção porque serão recompensados. Que preparassem a sala pensando "vamos receber Tieta".
O cinema brasileiro primeiro tem que vencer em casa. Fico feliz com a retomada, e acho fundamental
que haja continuidade, porque se tiver, o cinema poderá ter o mesmo status da música popular brasileira
fora do do país. Se Tieta tiver uma boa receptitivade fora, vai ser ótimo, vai abrir muitos caminhos. Mas
a chave do sucesso é a continuidade.
E como está a questão da volta de Sonia Braga ao Brasil?
Depois das filmagens, voltei para os Estados Unidos e estava em estado
de felicidade absoluta. Fiz outro filme para a tv, Money plays, com o Roy Scheider, e veio o convite
para a novela. Até colocar o pé em Buenos Aires eu era a pessoa mais feliz do mundo, estava encarando
o projeto como uma segunda volta, porque eu também queria muito voltar a fazer novela. Mal sabia eu...
Foi uma experiência horrível e levei alguns meses para me recuperar. Como o cinema brasileiro, eu também
preciso de continuidade. Vou voltar para a estréia de Tieta. Depois a gente vê.

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